Demanda por carros elétricos desacelera e refinarias revisam projeção de gasolina
Vendas de veículos eletrificados crescem abaixo do esperado nos EUA e Europa, levando ExxonMobil, Shell e Petrobras a revisar para cima o consumo global de gasolina em 2026.
O ritmo de adoção de veículos elétricos (EVs) perdeu fôlego nos principais mercados desenvolvidos, levando grandes refinadoras globais a revisar para cima suas projeções de demanda por gasolina em 2026. Relatórios recentes da Agência Internacional de Energia (AIE), da OPEP e do banco Morgan Stanley apontam que a demanda global por gasolina deve atingir 27,4 milhões de barris por dia no próximo ano, cerca de 500 mil bpd acima das estimativas feitas no início de 2025.
Nos Estados Unidos, as vendas de EVs cresceram apenas 5,4% no primeiro semestre, contra 47% em 2023, segundo a Cox Automotive. A retirada de incentivos federais sob a administração atual, somada a preocupações com autonomia, infraestrutura de recarga e o custo de seguros, esfriou o entusiasmo dos consumidores. Na Europa, o cenário é semelhante: a Alemanha viu suas vendas de elétricos puros cair 27% após o fim dos subsídios em 2023, segundo a associação ACEA.
O movimento beneficia diretamente as margens de refino, sobretudo no chamado crack spread, diferencial entre o preço do petróleo e o dos derivados. A ExxonMobil reportou margens de US$ 18 por barril em suas refinarias da Costa do Golfo, enquanto a Shell anunciou que adiará a conversão da unidade Wesseling, na Alemanha, para produção de biocombustíveis, mantendo gasolina e diesel por mais cinco anos.
No Brasil, o impacto é nuançado. O país tem uma matriz veicular única, dominada por motores flex-fuel que rodam com gasolina C (contendo 27% de etanol anidro) e etanol hidratado. A Petrobras revisou para cima sua projeção de processamento de gasolina nas refinarias de Paulínia, Replan e Reduc, e estuda retomar investimentos em hidrocraqueamento adiados na gestão anterior. A demanda doméstica deve crescer 2,8% em 2026, ante 1,1% projetado anteriormente, segundo a ANP.
O setor de etanol, paradoxalmente, também se beneficia. Com preços do barril sustentados pela OPEP+ e demanda firme por gasolina, o produto brasileiro ganha competitividade nas exportações para Califórnia, Coreia do Sul e Japão como combustível de baixo carbono. A Raízen e a Atvos anunciaram expansão de capacidade em São Paulo e Goiás, mirando o programa SAF (Sustainable Aviation Fuel), que deve consumir mais de 4 bilhões de litros de etanol globalmente até 2030.
Especialistas alertam, contudo, que a desaceleração dos EVs é provavelmente temporária. China lidera com folga, respondendo por mais de 60% das vendas globais, e modelos como BYD Seagull e Xiaomi SU7 chegam à Europa por preços inferiores a 25 mil euros. Para o setor de petróleo, o recado é claro: o pico da demanda por gasolina foi adiado, mas não cancelado. Quem souber gerir essa transição em câmera lenta, equilibrando refino tradicional e investimentos em renováveis, capturará as melhores margens da próxima década.