EUA devem ultrapassar Catar em capacidade de exportação de GNL em 2026

Entrada em operação do terminal Plaquemines, da Venture Global, coloca Estados Unidos como maior exportador global de gás natural liquefeito, reconfigurando fluxos para Europa e Ásia.

Os Estados Unidos estão prestes a se consolidar como o maior exportador global de gás natural liquefeito (GNL) já em 2026, ultrapassando o Catar, segundo projeções atualizadas da Energy Information Administration (EIA) e da consultoria Wood Mackenzie. O salto decisivo virá com a entrada em operação plena do terminal Plaquemines, da Venture Global LNG, na costa da Louisiana, somada à expansão do Corpus Christi Stage III, da Cheniere Energy.

A capacidade nominal americana deve alcançar 165 milhões de toneladas anuais (mtpa) até dezembro de 2026, ante 142 mtpa atuais, superando os 142 mtpa do Catar, que só deve responder com a expansão do campo North Field em 2027. Plaquemines sozinho adicionará 27,2 mtpa em duas fases, com tecnologia modular pré-fabricada que reduziu prazos de construção em mais de 30% frente a projetos tradicionais como Sabine Pass e Cameron LNG.

A reconfiguração do mercado é profunda. A Europa, que importou recordes de GNL americano após a invasão russa da Ucrânia, garantiu contratos de longo prazo com TotalEnergies, Shell e EnBW para suprir terminais em Roterdã, Wilhelmshaven e Gdansk. A Ásia, especialmente Japão, Coreia do Sul, China e Índia, também ampliou compras spot, beneficiando-se da expansão do Canal do Panamá e de rotas pelo Cabo da Boa Esperança em meio à crise no Mar Vermelho.

Para o Brasil, o avanço americano impacta diretamente a estratégia de gás natural. Terminais como o de Açu, da Prumo Logística, e o GNL Sul, em Pelotas, dependem de cotações competitivas no Henry Hub, hoje em torno de US$ 3,20 por MMBtu, para viabilizar térmicas e a indústria de fertilizantes. A Petrobras estuda renegociar contratos de importação atrelados ao Brent, migrando para indexação ao Henry Hub e capturando preços até 40% menores.

O presidente da Venture Global, Mike Sabel, destacou que o modelo de comercialização da empresa, baseado em contratos curtos e vendas spot, mudou o paradigma do setor. Tradicionalmente dominado por contratos take-or-pay de 20 anos, o mercado de GNL ganhou liquidez similar à do petróleo, com hubs como o TTF holandês e o JKM asiático servindo de referência para hedge e financiamento de novos projetos.

Riscos, no entanto, persistem. O governo Biden chegou a impor moratória sobre novas licenças de exportação em 2024, sob pressão ambientalista, e a administração atual debate critérios de interesse público. Ativistas alertam para a pegada de carbono do gás de xisto do Permiano e do Haynesville, principais fontes de matéria-prima para Plaquemines. Para analistas, a liderança americana em GNL parece inquestionável no curto prazo, mas dependerá da capacidade política de equilibrar segurança energética, transição e disciplina regulatória nos próximos governos.

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