Sanções sobre petróleo russo: desconto do Urals encolhe e Ásia consolida compras

Com refinarias indianas e chinesas absorvendo a maior parte das exportações russas, o desconto do Urals frente ao Brent caiu para menos de US$ 9, apesar do tarifaço ocidental.

O regime de sanções ocidentais contra o petróleo russo, em vigor desde dezembro de 2022 com o teto de preço imposto pelo G7, entrou em nova fase com o estreitamento do desconto do óleo Urals frente ao Brent. Segundo dados da Argus Media e da S&P Global Commodity Insights, o spread caiu de US$ 35 por barril no auge de 2023 para menos de US$ 9 em maio deste ano, sinal de que Moscou conseguiu consolidar canais de venda e logística próprios para escoar sua produção.

A Índia tornou-se a principal porta de saída do petróleo russo. Refinarias como Reliance, Indian Oil e Nayara Energy importam mais de 1,9 milhão de barris por dia, transformando-os em diesel e gasolina exportados para a Europa, em um arranjo que driblou parcialmente o espírito das sanções. A China, segundo maior comprador, mantém aquisições próximas a 1,4 milhão de bpd, parte recebida via oleoduto ESPO e parte por petroleiros desembarcando em Qingdao e Rizhao.

O instrumento central das sanções, o preço-teto de US$ 60 por barril, perdeu eficácia operacional. Estima-se que mais de 75% das exportações russas marítimas hoje viajem em petroleiros da chamada frota sombra, navios com bandeiras de conveniência, seguros não-ocidentais e estruturas societárias opacas em Dubai, Hong Kong e Cingapura. O Departamento do Tesouro dos EUA e a OFAC ampliaram sanções secundárias contra mais de 180 embarcações em 2025, mas o ritmo de adaptação russa segue elevado.

Para a economia russa, o cenário garante fluxo de receitas fiscais relevantes ao Kremlin, estimadas em US$ 180 bilhões anuais com exportações de hidrocarbonetos, segundo o Ministério das Finanças. O ministro Anton Siluanov afirmou que a meta orçamentária de 2026 considera Brent entre US$ 70 e US$ 80, com Urals próximo a US$ 65, sustentando despesas militares elevadas pela continuidade da guerra na Ucrânia.

O impacto sobre o Brasil é indireto, mas relevante. Com a Índia transformando óleo russo em diesel a custos competitivos, as exportações de derivados para o porto de Santos e o terminal de São Sebastião pressionam margens da Petrobras e de distribuidoras como Vibra e Raízen. A ANP estima que cerca de 28% do diesel importado em 2025 teve origem indireta no petróleo russo, fenômeno que cria dilemas regulatórios e diplomáticos para o Itamaraty.

Analistas do Eurasia Group e do Council on Foreign Relations avaliam que o regime de sanções precisa ser reformulado para recuperar efetividade, possivelmente com tarifas secundárias e ampliação do escopo geográfico. Sem isso, o petróleo russo continuará alimentando o mercado global por canais alternativos, dando ao Kremlin flexibilidade financeira e reduzindo a alavancagem ocidental em eventuais negociações de paz. Para produtores como Brasil, Noruega e Guiana, fica o desafio de competir em um mercado que se tornou ainda mais fragmentado, opaco e politizado.

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