Crescimento dos elétricos abranda e refinarias revêem em alta procura de gasolina para 2026
Várias majors do refino ajustaram em alta as projeções de procura de gasolina, à medida que o ritmo de adoção dos veículos elétricos perde fôlego em mercados-chave.
O abrandamento do crescimento das vendas de veículos elétricos (VE) está a forçar refinarias norte-americanas, europeias e asiáticas a rever em alta as suas projeções de procura de gasolina para 2026. A Marathon Petroleum, a Valero Energy e a Phillips 66, nos Estados Unidos, divulgaram revisões positivas nos últimos resultados trimestrais, sublinhando que o consumo de combustíveis rodoviários se mostrou mais resiliente do que o esperado.
Segundo dados da BloombergNEF, a quota de mercado dos veículos 100% elétricos nas vendas globais de automóveis novos terá ficado em 17,5% no primeiro trimestre, abaixo dos 20% inicialmente projetados pela própria consultora. Na Europa, a quebra é particularmente sentida na Alemanha, onde o fim dos subsídios federais provocou uma queda de 28% nas matrículas de elétricos puros. Em Portugal, o ritmo manteve-se positivo mas mais moderado, com os VE a representarem 21% das vendas, segundo dados da ACAP.
O fenómeno tem várias explicações. O custo de aquisição dos VE permanece, em média, 18% superior ao dos equivalentes a combustão interna; a rede de carregamento rápido continua aquém das necessidades em vários países da Europa Central e do Sul; e os juros elevados encarecem o financiamento, particularmente sensível em veículos de gama média e alta. As recentes tarifas impostas pela União Europeia aos VE chineses também desencorajaram a entrada de modelos mais acessíveis.
As refinarias estão a tirar partido do contexto. As margens de cracking nos Estados Unidos subiram para níveis acima dos 25 dólares por barril, e na Europa estabilizaram em torno dos 18 dólares. A Galp Energia, com a refinaria de Sines, beneficia desta dinâmica, sobretudo na produção de gasolinas de alto índice de octano destinadas à exportação para o oeste africano e para a costa leste dos Estados Unidos.
A Agência Internacional de Energia (AIE) reviu também as projeções globais. A procura de gasolina deverá atingir 27,2 milhões de bpd em 2026, valor 400 mil bpd acima da projeção anterior. O pico da procura de combustíveis fósseis para transporte rodoviário, anteriormente esperado para 2027, foi adiado para 2029-2030, dependendo do ritmo de adoção em economias emergentes como Índia, Indonésia e Brasil.
Não obstante, o setor reconhece que o ajustamento estrutural é inevitável. As majors petrolíferas continuam a investir em biocombustíveis avançados, hidrogénio e captura de carbono, ainda que a alocação de capital permaneça predominantemente dirigida aos hidrocarbonetos. A Repsol anunciou recentemente que adiará para 2030 várias das suas metas intermédias de descarbonização, decisão criticada por investidores ESG mas aplaudida por acionistas focados em retorno de curto prazo. Em Portugal, o debate sobre o ritmo da transição mantém-se vivo, com associações automóveis a defenderem maior pragmatismo na revisão do Pacote Fit for 55.