Tensões no Mar Vermelho elevam frete de petroleiros em 60% e redesenham rotas globais

Ataques houthis e instabilidade no Estreito de Bab el-Mandeb forçam desvio pelo Cabo da Boa Esperança, encarecendo o transporte e remodelando o comércio global de petróleo.

As tensões geopolíticas no Mar Vermelho continuam a abalar o mercado global de transporte marítimo de petróleo, com fretes de petroleiros tipo Aframax e Suezmax registrando alta acumulada de 60% em relação ao patamar de 2023, segundo dados da Baltic Exchange e da Clarksons Research. Os ataques recorrentes do grupo houthi do Iêmen a embarcações no Estreito de Bab el-Mandeb obrigam armadores a desviar pelo Cabo da Boa Esperança, adicionando entre 10 e 14 dias por viagem entre o Golfo Pérsico e a Europa.

O impacto financeiro é expressivo. O frete spot para um VLCC (Very Large Crude Carrier) operando na rota Oriente Médio-Europa atingiu US$ 95 mil por dia em maio, ante US$ 58 mil em condições normais. Para o segmento de petroleiros de produto, que transporta diesel, gasolina e nafta, as tarifas ultrapassaram US$ 78 mil diários, pressionando margens de traders e elevando preços ao consumidor final na Europa e na África Ocidental.

O redesenho das rotas tem efeitos colaterais profundos. Companhias como Maersk, MSC, CMA CGM e a brasileira Transpetro ajustaram cronogramas, ampliaram seguros e renegociaram cláusulas com cargueiros. A Suez Canal Authority, do Egito, viu sua arrecadação cair mais de 60% em 2024, com perdas estimadas em US$ 7 bilhões. A coalizão multinacional Prosperity Guardian, liderada pelos EUA, tem custos operacionais superiores a US$ 1 bilhão anuais, ainda sem garantir segurança plena.

Para o Brasil, o cenário traz oportunidades e desafios. As exportações de óleo cru do pré-sal para a Ásia, especialmente China e Índia, ganham competitividade frente ao petróleo do Oriente Médio, agora penalizado pelo frete mais alto. A Petrobras ampliou embarques para Singapura e Reliance, em Jamnagar, em 18% no primeiro quadrimestre. Por outro lado, a importação de diesel S-10 a partir da Índia e da Arábia Saudita encareceu, contribuindo para inflação de combustíveis em São Paulo e Belo Horizonte.

O fluxo russo também sofre reconfiguração. Petroleiros da chamada frota sombra, que transportam Urals com desconto sob preço-teto do G7, agora levam até 45 dias para chegar à Índia, elevando o custo final do barril em US$ 4 a US$ 5. Refinarias indianas como Reliance e Nayara absorvem parte do custo, mas começam a buscar barris alternativos da Guiana, da Venezuela e do próprio Brasil.

Analistas da Vortexa e da Kpler avaliam que o cenário deve persistir ao menos até 2027, mesmo com eventuais cessar-fogos pontuais. A reconstrução da confiança no Mar Vermelho exige solução política duradoura para o conflito em Gaza e estabilização do Iêmen, processos lentos. Para o setor de petróleo e gás, fica a lição estrutural: a geopolítica voltou ao centro da formação de preços, exigindo planejamento logístico mais sofisticado e estratégias de hedge mais ousadas para empresas, governos e consumidores.

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