Tensão no Mar Vermelho dispara fretes de petroleiros em 60% e reconfigura fluxos globais
Os ataques na rota do Bab el-Mandeb estão a forçar petroleiros a contornar o Cabo da Boa Esperança, com impacto direto nos custos logísticos e nos prémios de seguro marítimo.
A tensão prolongada no Mar Vermelho, com ataques persistentes do movimento Houthi a navios mercantes nas proximidades do estreito de Bab el-Mandeb, levou os fretes de petroleiros a registar uma subida média de 60% em rotas-chave, segundo dados da Baltic Exchange. As taxas para navios VLCC (Very Large Crude Carrier) nas rotas do Golfo Pérsico para a Europa atingiram pontas máximas em torno dos 95 mil dólares por dia, contra médias históricas próximas dos 38 mil dólares.
A reconfiguração dos fluxos globais é evidente. Mais de 80% dos petroleiros e transportadores de produtos refinados que normalmente atravessariam o Canal do Suez optam agora pela rota alternativa em torno do Cabo da Boa Esperança, o que adiciona entre 10 e 14 dias à duração média de cada viagem entre o Golfo Pérsico e os portos do norte da Europa. O consumo adicional de combustível, refletido nas tarifas, aproxima-se de 500 toneladas de fuelóleo marítimo por viagem.
Para Portugal, a situação tem dois efeitos. Por um lado, o porto de Sines beneficiou de um aumento expressivo da atividade, com escalas adicionais de navios que necessitam de reabastecimento (bunkering) e de operações de descarga parcial. Por outro lado, os custos finais dos derivados importados subiram, refletindo-se no preço dos combustíveis nos postos. O fuelóleo marítimo de muito baixo teor de enxofre (VLSFO) atingiu valores spot acima dos 620 euros por tonelada em Sines.
O prémio de seguro adicional para travessias no Mar Vermelho passou de 0,02% para 0,7% do valor segurado, segundo dados da Lloyd's Joint War Committee. Para um petroleiro VLCC com carga avaliada em 150 milhões de dólares, o sobrecusto pode atingir 1 milhão de dólares por viagem. Várias seguradoras europeias, designadamente em Londres e Oslo, restringiram coberturas, redirecionando os armadores para mercados asiáticos de seguro com prémios marginalmente inferiores.
O impacto na geografia comercial é significativo. Refinarias europeias têm aumentado as compras de crude do Atlântico, designadamente Brent, WTI Midland e crude brasileiro, em detrimento de barris do Golfo Pérsico. Inversamente, refinarias asiáticas absorvem volumes adicionais do Médio Oriente, beneficiando de fretes mais curtos. O diferencial entre o Brent e o Dubai, referência asiática, estreitou-se para cerca de 1,8 dólares por barril, refletindo este rebalanceamento.
As perspetivas de resolução do conflito permanecem incertas. A coligação naval internacional liderada pelos Estados Unidos, a operação Aspides da União Europeia e patrulhas chinesas e indianas têm dificultado mas não eliminado os ataques. Analistas geopolíticos consideram improvável uma normalização antes de 2027, dependendo da evolução do conflito mais amplo no Médio Oriente. Para o setor energético português, a vigilância sobre o Mediterrâneo Oriental e o Mar Vermelho tornou-se uma componente permanente da gestão de risco de aprovisionamento.