América Latina expande refino com Dos Bocas no México e novos projetos em Cuba

O arranque pleno da refinaria de Dos Bocas e os investimentos em Cienfuegos marcam um esforço regional para reduzir a dependência de produtos refinados importados.

A América Latina está a atravessar um ciclo de expansão da capacidade de refinação raramente visto nas últimas duas décadas. A refinaria de Dos Bocas, no estado mexicano de Tabasco, alcançou finalmente o regime nominal de processamento de 340 mil barris por dia, segundo a empresa estatal Petróleos Mexicanos (PEMEX). O empreendimento, com custo final superior a 17 mil milhões de dólares — mais do dobro do orçamento inicial —, representa a maior obra do setor petrolífero realizada no México neste século.

O objetivo estratégico de Dos Bocas é reduzir a dependência mexicana de gasolinas e gasóleo importados dos Estados Unidos, dependência que chegou a representar 70% do consumo nacional em 2022. A configuração da refinaria privilegia o processamento de crude pesado nacional do tipo Maya, com alto teor de enxofre, recorrendo a unidades de coque retardado e hidrocraqueamento. A produção destina-se primariamente ao mercado interno, mas excedentes pontuais poderão ser exportados via Pacífico.

Em Cuba, o governo anunciou um acordo com parceiros russos e venezuelanos para a modernização da refinaria de Cienfuegos, com investimento estimado em 1,8 mil milhões de dólares. A unidade, originalmente construída pela União Soviética nos anos 1980 e modernizada parcialmente com a participação venezuelana na década passada, deverá ampliar a capacidade dos atuais 65 mil bpd para 150 mil bpd até 2027. O projeto enfrenta, contudo, desafios significativos relacionados com as sanções norte-americanas e a dificuldade de obtenção de tecnologia ocidental.

O contexto regional mostra movimentações paralelas. A Petrobras, no Brasil, reverteu a estratégia de desinvestimento e está a investir na modernização das refinarias de Abreu e Lima e da REPLAN. A colombiana Ecopetrol mantém os investimentos na refinaria de Cartagena, enquanto a venezuelana PDVSA continua a operar com capacidade muito abaixo do potencial nominal, em grande parte devido à degradação dos ativos e à fuga de quadros qualificados.

Para Portugal, a expansão refinadora latino-americana tem implicações comerciais relevantes. A Galp, através da refinaria de Sines, exporta regularmente nafta e gasolina para mercados do Caribe e da costa leste sul-americana. A entrada em operação plena de Dos Bocas poderá pressionar à baixa os fluxos atlânticos, embora a procura brasileira continue a oferecer oportunidades de arbitragem para refinadores europeus.

Os desafios estruturais persistem. A intensidade de carbono das novas refinarias latino-americanas é, em média, 15% superior à de unidades equivalentes europeias, o que poderá comprometer a competitividade futura no quadro do CBAM. Adicionalmente, a falta de complexidade nas configurações limita a flexibilidade para produzir combustíveis com especificações Euro VI exigidas em mercados de exportação. Ainda assim, o ciclo de investimento representa uma aposta política e económica na segurança energética regional, num período em que a transição para combustíveis alternativos avança a ritmos desiguais conforme a geografia.

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