Megaprojeto NEOM de hidrogénio verde arranca produção comercial na Arábia Saudita
A primeira unidade industrial de hidrogénio verde de escala mundial entrou em operação comercial no noroeste saudita, com capacidade para 600 toneladas diárias dedicadas à exportação.
O megaprojeto NEOM Green Hydrogen Company (NGHC), uma parceria entre a estatal saudita ACWA Power, a norte-americana Air Products e a NEOM Company, entrou oficialmente na fase de produção comercial, marcando um momento simbólico para a indústria global do hidrogénio verde. A instalação, localizada na região noroeste do reino, junto ao Mar Vermelho, tem capacidade para produzir 600 toneladas diárias de hidrogénio através de eletrólise alimentada por 4 gigawatts de energia solar e eólica.
O investimento total ascende a 8,4 mil milhões de dólares e fará da Arábia Saudita um dos primeiros exportadores líquidos de hidrogénio verde a nível mundial. O produto será convertido em amónia verde para facilitar o transporte por via marítima, com destino principalmente a portos europeus e asiáticos. A Air Products tem o contrato exclusivo de offtake por 30 anos, comprometendo-se a colocar o produto nos mercados de Roterdão, Hamburgo e Singapura.
Para Portugal, o arranque do NEOM tem implicações estratégicas. O Plano Nacional do Hidrogénio prevê a importação de moléculas verdes para complementar a produção doméstica, designadamente os projetos do Vale do Tejo e de Sines, este último desenvolvido pela Galp em parceria com a ACCIONA. O custo nivelado de produção (LCOH) saudita situa-se em torno dos 2,5 dólares por quilograma, valor que dificilmente será replicado em latitudes europeias, onde os custos rondam os 4,5 a 6 euros por quilograma.
O eletrolisador instalado no NEOM, fornecido pela norueguesa Nel ASA em colaboração com a alemã Thyssenkrupp Nucera, representa o maior agregado de capacidade alcalina alguma vez construído. O projeto tem sido acompanhado por dificuldades técnicas próprias da escala pioneira, designadamente questões de calibração entre células e gestão de hidrogénio residual, parcialmente resolvidas durante a fase de comissionamento prolongada.
O contexto geopolítico favorece a aposta saudita. Com a procura europeia de moléculas verdes a ser estimulada pelo regulamento RED III e pelo mecanismo de ajustamento de carbono nas fronteiras (CBAM), os importadores tradicionais de combustíveis fósseis começam a explorar o hidrogénio como ativo estratégico. A Alemanha já assinou contratos preliminares para a importação de 500 mil toneladas anuais de amónia verde até 2030, com origem maioritária no Médio Oriente.
Contudo, persistem dúvidas sobre o ritmo de adoção. Vários projetos de aço verde na Europa, designadamente o H2 Green Steel sueco, têm enfrentado dificuldades de financiamento e de procura industrial. A Comissão Europeia tem reforçado o Banco do Hidrogénio para subsidiar a procura, mas a competitividade económica final ainda depende da evolução do preço do carbono no sistema ETS. Para a Arábia Saudita, o NEOM representa a aposta de diversificação além do petróleo prevista na Visão 2030, e o sucesso comercial deste projeto será observado de perto por outros produtores do Golfo, incluindo os Emirados e o Omã.